Economia

Brasil enfrenta lacuna crítica de dados sobre acidentes de entregadores por aplicativo

O Brasil não consegue mensurar com precisão quantos entregadores de aplicativo sofrem acidentes no trabalho. Essa ausência de dados consolidados representa um desafio para políticas públicas e proteção social, revelando uma vulnerabilidade estrutural no setor que já conta com 485 mil trabalhadores.

O cenário fica evidente na trajetória de Silvio Luiz Pinheiro. Após sofrer um acidente de bicicleta na Avenida Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo, quando o freio travou de forma inesperada, ele procurou ajuda na central de locação. Ao devolver o equipamento com ferimentos na clavícula e cotovelo, recebeu atendimento focado apenas no registro do material — não na sua segurança.

Números e ausência de regulação

O setor de entregadores representa 29,3% dos 1,7 milhão de pessoas que trabalham por aplicativos no Brasil, conforme dados do IBGE de 2024. A renda média dessa população fica em torno de R$ 2.996 mensais, com jornadas acima de 40 horas semanais. Medir os riscos enfrentados permanece impossível, já que os sistemas de saúde e trânsito não diferenciavam — até recentemente — se um acidentado estava trabalhando no momento do incidente.

Os dados do Detran em São Paulo indicam uma tendência preocupante: acidentes fatais envolvendo ciclistas cresceram 27,8% em cinco anos, saltando de 320 casos em 2021 para 409 em 2025. Esse número abrange ciclistas em geral, não especificamente entregadores, reforçando a lacuna informacional.

Tentativas de solução

O Ministério Público do Trabalho identificou o problema e criou um projeto estratégico contra a subnotificação de acidentes entre plataformizados. Em abril de 2025, o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica orientando profissionais a registrar se a vítima trabalhava para aplicativos e se estava em jornada. Contudo, um ano depois, estatísticas consolidadas ainda não existem.

“Não temos ainda o dado compilado para saber se realmente esses agravos estão sendo registrados”, afirma Rodrigo Castilho, procurador do trabalho e coordenador nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho do MPT.

O silêncio das plataformas

Um segundo obstáculo — e talvez mais significativo — é a opacidade das próprias empresas de delivery. Castilho aponta que as plataformas alegam sigilo sobre algoritmos e dados de concorrência para não divulgar informações básicas: número de ciclistas acidentados, quantidade de trabalhadores ativos ou distribuição de jornadas.

“São as únicas empresas que o Ministério Público do Trabalho não tem nenhuma informação”, destaca o procurador, qualificando a situação como incomum em sua atuação.

Proteção social limitada

Embora plataformas como iFood, 99Food e Keeta tenham comunicado à imprensa que oferecem seguros para acidentes pessoais e assistência, falta comprovação sobre quantos trabalhadores efetivamente se beneficiam. A proteção previdenciária de longo prazo — aposentadoria, auxílio-doença e afastamento por invalidez temporária — que funcionários formais recebem não é substituída por esses seguros, geralmente restritos a cobertura por morte.

Silvio abandonou temporariamente as entregas após seu acidente, retornando ao emprego formal justamente pela segurança do convênio. Hoje, voltou às plataformas motivado pelos benefícios à saúde do ciclismo, mas a experiência mudou sua percepção sobre a necessidade de proteção estruturada no setor.

Regulamentação em espera

Em março de 2024, o governo federal apresentou proposta de regulamentação para motoristas de aplicativo, deixando entregadores fora do escopo. As negociações sobre essa categoria seguem sem consenso, deixando milhares de trabalhadores em um vazio regulatório enquanto enfrentam riscos diários nas ruas.

Com informações de G1 Economia.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial da Gazeta Nacional.

— Redação Gazeta Nacional

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